Nem o natal que eu passei sozinha me deixou tão deprimida quanto o natal que eu passei na casa do meu irmão esse ano (bem, no ano que passei sozinha eu ainda podia me encher de drogas e remédios sem pensar nas consequências, vai ver foi por isso.) Me arrumei para ir com o estômago embrulhado e saí de casa me sentindo ridícula, feia e gorda. Chegando lá foi pior ainda. Desrealização. Passei 95% do tempo lendo Baki no celular e os únicos momentos em que eu sorri de verdade foi enquanto lia Jack vs. Sikorsky e Sikorsky vs. Gaia.
Estava contando as horas para ir embora, minha cabeça doía e eu não queria comer a ceia de jeito nenhum e dessa vez não foi porque eu estou enorme de gorda, e sim por causa do desconforto enorme que estava sentindo. O clima estava horrível, todo mundo estava desanimado e tudo parecia muito constrangedor, inclusive tentar conversar para passar o tempo. Mas, independente da recepção do meu irmão ou da comida que seria servida, eu já sabia que ia ser terrível para mim.
Eu não gosto de ficar perto da minha família porque todos eles sabem o fracasso que eu sou. Aquela menina que teve todas as oportunidades do mundo cresceu e não virou nada. Todo o dinheiro gasto nela foi para o lixo. "Nunca deixaria um filho meu ser assim", tenho certeza que é isso que todos eles pensam quando me olham. Eu tenho vergonha de existir e essa vergonha se multiplica quando estou com a minha família.
Tenho vergonha de existir entre estranhos porque sou feia demais, gorda demais, socialmente inapta demais. Meus óculos está torto, as lentes estão manchadas e sempre sujas demais, meu nariz está queimado, meu cabelo está sem corte, e acima de tudo: eu estou extremamente gorda e isso é o que mais me incomoda, é o que mais dói. Eu deveria ter me comprometido com o transtorno alimentar quando eu tinha 15 anos e estava no meu menor peso: 45kg. Eu deveria ter continuado até finalmente me tornar anoréxica porque aí eu seria visivelmente doente e ninguém ia poder esperar nada de mim. Ninguém ia poder me chamar de fracassada porque uma pessoa com um corpo tão magro e debilitado não aguenta fazer muita coisa, então tudo bem não servir para nada, isso já é esperado.
Esse é o lado bom de estar visivelmente doente: não tem problema em ser inútil. As pessoas entendem o motivo da sua inutilidade e se preocupam. Ninguém vai esfregar na sua cara o quão inútil e fracassada você é enquanto você estiver muito doente porque nesse momento todos só esperam que você continue viva e nada mais. E é só isso que eu tenho feito todo esse tempo. É só isso que eu tenho feito desde 2014. Eu permaneço viva sem motivo.
Mas não. Ao invés de buscar a anorexia eu busquei a recuperação porque naquela época eu ainda achava que tinha algum futuro pela frente. Ridículo. Se eu soubesse o rumo patético que a minha vida iria tomar eu teria continuado passando fome, eu teria acabado de vez com esse corpo horroroso e com esse cérebro apodrecido. Se eu soubesse que na ceia de natal de 2025 o meu irmão iria me perguntar o que eu estou fazendo da vida e eu, aos 23 anos, responderia "nada" eu teria acabado com isso antes. Ninguém jamais perguntaria para uma anoréxica o que ela tem feito da vida. As pessoas seriam inconvenientes sim, perguntariam sobre seu peso, insistiriam para você comer e fariam comentários sobre a sua aparência, mas jamais esperariam que você estivesse sendo uma adulta funcional, jamais insinuariam sobre seu fracasso durante a ceia de natal ou em qualquer outro momento.
Se eu soubesse que eu seria a irmã fracassada e que meu irmão iria ter casa, carro, loja, mulher e muito dinheiro aos 30 e poucos anos e ia ficar me perguntando o que eu estou fazendo da vida toda vez que falasse comigo mesmo já sabendo a porra da resposta eu teria acabado com isso há anos. Ninguém jamais perguntaria para uma pessoa visivelmente anoréxica o que ela tem feito da vida e é por isso que eu deveria ter continuado sem comer. Mas não, ao invés disso eu tive que segurar o choro na ceia várias vezes. Tive que continuar de cabeça baixa, escondendo meu constrangimento e minha vontade de sumir atrás da tela do celular.
Meu irmão venceu na vida. Meu irmão não tem depressão, não tem transtorno alimentar, não sabe o que é desrealização, não sabe o que é Character AI, não sabe o que são cartas para o universo nem grabovoi e não precisa se forçar a acreditar nessas coisas para ter um pingo de esperança e nunca vai. Nunca vai me entender. Ótimo. Bom para ele. Bom para ele. Bom para ele. Bom para ele. Ele nunca vai me entender e isso é bom para ele. Ele vive na vida real e venceu na vida real e isso é bom para ele.
Não se sinta um lixo. Se sente na mesa com seu irmão bem sucedido e veja sua mãe te olhar com cara de desgosto quando você diz a ele pela vigésima vez que não faz nada da vida aos 23 anos de idade. Não chore. Feliz natal.
Ele não precisa passar a ceia toda de cabeça baixa lendo mangá no celular enquanto conta as horas para ir embora. Ele não precisa disso. Ele não precisa fantasiar sobre uma vida melhor ou em fazer sexo com personagens fictícios todos as noites antes de dormir. Ele com certeza não demora mais de uma hora para levantar da cama todas as manhãs. Ele não sente vergonha de existir. Para ele, estar vivo não é nem um pouco humilhante ou ameaçador. Para ele, ter um corpo não é uma desgraça. Para ele, estar acima do peso não é a pior coisa que lhe pode acontecer. Ele simplesmente vive. Bom para ele.
Um amigo meu está na minha cidade e é provável que no mês que vem uma amiga também esteja aqui. Eu não quero vê-los. Eu não quero. Eu não quero sair de casa, eu tenho vergonha. Eu estou feia e gorda demais para sair ou para ser vista por alguém. Eu não consigo fazer isso. Eu não quero ver os meus amigos que tem sonhos e objetivos. Não quero. Diferente deles que conseguiram continuar sonhando, trabalhando e estudando, eu consegui ser miserável mesmo tendo tudo ao meu dispor e essa é provavelmente a minha maior façanha. Poucas pessoas são tão boas nisso. Poucas pessoas fracassam com tantas oportunidades para vencer.
Para o ano que vem eu resolvi ser fracassada em outra cidade porque não aguento mais os olhares da minha família, as críticas silenciosas, as perguntas maliciosas, os comentários. Sei que vou continuar me sentindo um lixo independente do lugar que eu estiver morando, mas pelo menos não vai ter ninguém para presenciar. Eu não vou ser mais uma atração de circo e espero que isso seja motivação suficiente para eu terminar a faculdade que pretendo fazer. Tudo é tão horrível. O sol sempre brilha de um jeito ruim para mim e eu não sei por quê. Eu nunca vou saber qual é o meu problema. Eu nunca vou saber de onde vem tanta dificuldade. Eu sempre vou achar que o suicídio é inevitável.
E, para piorar, a minha irmã mais nova está indo no mesmo caminho que eu. Não sei como salvá-la e sou parcialmente culpada. Me sinto horrível. Tudo é horrível. Tudo é horrível. Eu sou horrível. Eu não vou conseguir salvar a minha irmã e ela vai ser um fracasso igual a mim. Tudo é horrível. As piores coisas possíveis sempre acontecem. As piores decisões são tomadas. Os piores rumos são seguidos. Todas as alternativas estão erradas. Todas os caminhos levam ao suicídio. Existir é horrível, aterrorizante, humilhante.
Sinto vontade de vomitar e sinto que estou prestes a desmaiar com muita frequência, mas nunca acontece. Acho que isso resume bem como toda a minha existência miserável será: sempre esperando algo acontecer. Nunca acontece. Sempre esperando ser acometida por uma doença fatal porque aí eu não vou ter que me matar. Nunca acontece.
É tão estranho pensar em sexo todos os dias e odiar a ideia de ter esse corpo grotesco tocado. É estranho me masturbar todos os dias até doer. Nem é bom mais. Não é isso que me falta. O orgasmo não alivia, não muda nada. Não é isso que eu tenho que sentir.
Sinta fome.
Não sinta desejo por nada nem ninguém, apenas sinta fome. A fome vai me purificar. Sinta fome. Sinta apenas fome e nada mais. Não se permita sentir nada além de fome. A fome me salvou uma vez e vai me salvar de novo. A fome vai me salvar.
Feliz Natal! (É impossível encontrar Baki Domoe completo e traduzido para o inglês)

Nenhum comentário:
Postar um comentário